O negócio tá feio

No começo do ano no futebol brasileiro,  sempre aparecem os mesmos argumentos sobre os campeonatos estaduais. O fato de eles não terem a mesma relevância das edições do passado é absolutamente inegável e sua existência contínua deve ser questionada. Mesmo assim, isso não é o assunto deste blog hoje.

Hoje, o assunto é a impressionante queda de público nos jogos dos estaduais. O público baixo é um problema sério desde os anos 90, mas sinceramente eu não lembro dos números terem sido tão ruins como são hoje.

Existem várias razões que contribuem para essa queda. Em primeiro lugar, os preços inflacionados. Os ingressos por R$5 ou R$10 estão no passado e, hoje em dia, o preço médio da arquibancada é em torno de R$30. Considerando que o salário médio brasileiro é de R$1.202, não dá para o ‘brasileiro comum’ ficar gastando R$30 a mais duas vezes por semana.

Mas o motivo predominate é o horário dos jogos durante a semana. Para manter o lugar da lucrativa novela das nove, Globo agenda os principais jogos na quarta-feira para as dez horas da noite. Claro que esse arranjo fica bom para a emissora, mas só para ela.

Não é segredo que a maioria dos torcedores dos grandes clubes paulistas e cariocas são trabalhadores. E numa cidade tão grande e com transporte urbano tão fraco como São Paulo ou Rio, grande parte dos cidadãos precisam levantar às cinco ou seis horas da manhã, só para pegar um ônibus super-lotado ou ficar em um trânsito horroroso para chegar no trabalho. Para eles, estar num estádio à meia-noite numa quarta-feira é uma impossibilidade.

Porém, muitos deles têm vontade de ir ao estádio e torcer pelo seus times, mas na vida corrida de um típico paulista ou carioca, isso não compensa. Se os jogos começassem mais cedo, às nove horas por exemplo, o público seria muito maior, sem dúvida nenhuma. Mas, será que alguém no Globo ou FPF pensa nisso? Claro que não. A única motivação deles começa com a letra D, e rima com artilheiro. A famosa e “tradicional” novela das nove gera mais renda do que o jogo de futebol e ganha prioridade, fim de papo, sem consideração nenhuma pelos torcedores fiéis.

Mas, isso não é uma surpresa. A televisão é puro negócio. O problema é que esses torcedores comuns estão levando culpa pelo baixo público. Acho que eu nem preciso dizer como isso é injusto.

Hoje, às dez horas da noite, o Palmeiras jogou no Pacaembu contra o XV de Piracicaba. O preço do ingresso mais barato (na arquibancada) era R$30, e como eu moro na zona leste de São Paulo e não dirijo, com o metrô fechado antes da meia-noite, ir ao jogo significaria ficar num quarto de hotel próximo ao estádio. Tudo isso para assistir um jogo de qualidade baixa, contra um time, com todo respeito aos quinzistas, muito inferior. Nem preciso dizer que fiquei em casa e assisti pela televisão, deitado no sofá. Como o Meat Loaf cantou, “I would do anything for love, but I won’t do that”.

É uma pena, mas com os ingressos cada vez mais caros, os horários cada vez mais inconvenientes e os adversários cada vez mais fracos, ir ao estádio durante os estaduais está ficando cada vez mais dificil.

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2 thoughts on “O negócio tá feio”

  1. Euan, tem toda razão cara. È interessante né? Mas, q “alguém no Globo ou FPF pensa nisso? Claro que não.”, não sei. Talvez seja um “claro q sim”. Têm um motivo duplo não, neste jeito capturam a assistência da novela e do jogo. Brigado para seus “musings” e gosto muito de os ler em Português!

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